segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Moradores de Suiá Missú se dividem entre fé em Deus e na Justiça do STF

Fé na Justiça divina e dos homens é o que mantém viva nos moradores do distrito de Estrela do Araguaia (entre Alto Boa Vista e São Felix do Araguaia) a esperança de permanecer na terra, demarcada pela Fundação Nacional do Índio (Funai) como território Xavante. O processo, que não está transitado em julgado, está nas mãos do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa.

Grande parte do povoado do distrito professa fé evangélica. Para os católicos, há apenas um templo, dedicado a Nossa Senhora Aparecida. Já os protestantes freqüentam sete igrejas no distrito, das denominações Assembléia de Deus (quatro unidades), Igreja Mundial do Reino de Deus, Deus é Amor e Congregação Cristã no Brasil, informa o pastor Alan Kardec.

“Nós acreditamos num advogado supremo, superior, chamado Jesus Cristo”, sustenta o religioso. “A confiança que nós aplicamos no homem foi em vão”, completa, referindo-se a políticos e magistrados.

“Nós estamos contando com o Joaquim Barbosa, ele disse que se tiver mentira [no processo], ele resolve, mas se não tiver não tem como”, defende um microempresário local ao Olhar Direto, que reproduz o discurso vigente no distrito, segundo o qual, o laudo antropológico da Funai - atestando no processo a ocupação tradicional xavante na área - é falso.

Os locais vivem perguntando aos jornalistas que cobrem a desintrusão e aos líderes do movimento se “tem novidade em Brasília”. A expectativa é de que a qualquer momento uma “canetada” do presidente do Supremo reverterá a retirada dos não-índios.

Uma das principais líderes da resistência é a pastora Irene Maria Rocha Santos, vereadora em término de mandato e vice-prefeita eleita de Alto Boa Vista. Em seus discursos no Posto da Mata, ela sempre evoca a fé em Cristo como a salvação para o povo. Reunidos em vigília sob a estrutura do posto de combustível que marca a existência do distrito, os moradores oram e cantam durante cultos ou em manifestações individuais espontâneas de fé. Todas as noites.

Solução celestial

Para reforçar a intensidade com a qual este povo se ampara numa iminente intervenção divina, há ainda a identificação que encontram entre o drama vivido e os sermões baseados em histórias do Antigo Testamento bíblico.

Embalados pelas palavras de efeito dos pastores locais, os ocupantes desta terra no nordeste mato-grossense têm todos os motivos para se identificarem com a saga do povo hebreu: de posse das escrituras das áreas, eles entendem que detêm total direito sobre as terras, mas se vêem forçados ao êxodo.

A fé cristã e a certeza de um desfecho favorável de fato podem promover algum conforto ou sustentação a um povo emocionalmente em frangalhos, contudo o outro lado da moeda é um efeito desmobilizador e anestesiante.

Os depoimentos da população mais humilde demonstram desconhecimento sobre a efetividade do mandado judicial de desintrusão segundo o qual podem perder todos os bens não retirados até a chegada do oficial de Justiça acompanhado de força policial. Transmitem também uma esperança – quase uma certeza - de que uma reviravolta “cairá dos céus“ na última hora, movendo os corações da presidente Dilma Rousseff (PT) ou do ministro Joaquim Barbosa, e os manterá sobre a terra que reclamam.

Inertes

É recorrente a afirmação dos moradores de que ficarão sentados em casa até o último momento, com todos seus pertences lá dentro. Quase ninguém afirma que tentou juntar suas coisas e providenciar outro lugar para viver mesmo que provisoriamente – como casas de familiares na região. “Vai dar tudo certo” é o que repete o refrão de um dos principais hinos cantados em momentos de fervor.

“O povo de Deus já declarou e o Espírito Santo confirmou que o Brasil é do senhor Jesus, que este lugar é do senhor Jesus. Nós temos Jesus, que é o guerreador por nós”, responde dona Olinda dos Santos Freitas, 65 anos, que vive com o marido em Suiá Missú.

Ela, até o momento, sequer cogita que o despejo será cumprido; com a palma da mão levantada, repete os jargões da congregação e se limita a mencionar exaustivamente o Messias quando perguntada sobre como será seu futuro. “Ele que vai prevalecer por nós. Porque nós não somos nada, nós não temos força, mas o senhor Jesus, Ele tem força, Ele tem poder para nós vencermos. E nós vamos vencer no santo nome Dele”, confia.

Totalmente desiludida com a atuação de parlamentares e prefeitos com a bandeira da defesa de Suiá Missú, dona Helena Maria de Jesus, 54 anos, sintetiza a crença de que a prece dos ocupantes não-índios é o recurso mais valioso para que algo se mova no plano terreno em seu favor.

“Nós estamos esperando em Deus e Deus vai tocar no coração dessas pessoas grandes e eles vão olhar por nós e Deus vai tocar no coração deles porque aqui a gente sempre está orando”.

Fonte: Da Reportagem local - Lucas Bólico e Renê Dióz - enviados especiais a Estrela do Araguaia
Foto: José Medeiros / Fotos da Terra

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